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Crédito ajuda, e varejo reage no início do 2º semestre

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SETEMBRO, 2019

Notícias

Depois de um início de ano com pouco dinamismo, o varejo registrou seu melhor início de segundo semestre dos últimos seis anos, apoiado numa combinação de maior concessão de crédito a pessoas físicas, melhora do mercado de trabalho e inflação comportada. As vendas pelo conceito restrito cresceram 1% de junho para julho, o melhor resultado para o mês desde 2013. No conceito ampliado (que inclui veículos e material de construção), a alta foi de 0,7%. “A aceleração do crédito às pessoas físicas parece estar por trás do crescimento das vendas do comércio varejista em julho”, afirma Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC, parceira da CDL POA. Ele pondera que é cedo para otimismo por causa do fraco crescimento da renda e da alta taxa de desemprego.

Confira a matéria completa:

Depois de um início de ano com pouco dinamismo, o varejo registrou seu melhor início de segundo semestre dos últimos seis anos, apoiado numa combinação de maior concessão de crédito a pessoas físicas, melhora do mercado de trabalho e inflação comportada. As vendas pelo conceito restrito cresceram 1% de junho para julho, o melhor resultado para o mês desde 2013. No conceito ampliado (que inclui veículos e material de construção), a alta foi de 0,7%.

O forte resultado superou a mediana das projeções de analistas, que apontava para alta de 0,1% pelo conceito restrito. A leitura furou, inclusive, o teto das expectativas, de alta de 0,8%. Surpreendidos pelo desempenho, analistas consideraram os números como positivos, mas pregaram cautela sobre a sustentabilidade desse ritmo de consumo.

Os dados apontam que a demanda das famílias, apesar do desemprego, pode estar mais forte, mas é preciso esperar mais dados, afirma Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). “É um argumento no sentido de ‘será mesmo que temos uma fraqueza de demanda?'”, diz.

Além da surpresa com o dado refente a julho, os desempenhos dos meses de maio e junho revelaram-se mais positivos após serem revisados pelo IBGE. Pela série com ajuste sazonal, sempre frente ao mês imediatamente anterior, o varejo cresceu 0,1% em maio (dado revisado de estabilidade) e subiu 0,5% em junho (revisado de 0,1%).

Responsável pela metade do faturamento do varejo, o segmento de hiper, supermercados e produtos alimentícios liderou as vendas do setor, com crescimento de 1,3%. O segmento respondeu também em grande parte pela divergência das projeções para o resultado efetivo, que ficou na contramão do indicador da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Segundo Isabella Nunes, gerente da pesquisa do IBGE, preços mais baixos de alimentos contribuíram para o resultado de supermercados, além da recuperação do mercado de trabalho, o que contribui para o avanço do consumo de bens básicos. “São fatores que explicam o ganho de ritmo, assim como o crédito”, disse.

Para Helcio Takeda, da consultoria Pezco, a inflação comportada entre maio e julho contribuiu para o consumo de bens básicos em geral, inclusive de produtos farmacêuticos, que cresceram 0,7% de junho para julho. “É uma mudança bem importante. Essa queda da inflação tem efeito significativo sobre a renda”, afirma o economista.

O comportamento do crédito desempenhou papel relevante para o avanço das vendas do varejo em julho. Dados do Banco Central divulgados no fim de agosto mostraram que as concessões de crédito livre subiram 5,1% de junho para julho e passaram acumular alta de 12,9% em 12 meses.

“A aceleração do crédito às pessoas físicas parece estar por trás do crescimento das vendas do comércio varejista em julho”, afirma Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC – parceira da CDL POA. Ele pondera que é cedo para otimismo por causa do fraco crescimento da renda e da alta taxa de desemprego.

Economistas do Itaú Unibanco destacaram que os produtos mais sensíveis ao crédito cresceram, inclusive, a taxas mais elevadas que aqueles sensíveis ao comportamento da renda. É o caso das vendas de móveis e eletrodomésticos, que avançaram 1,6% de junho para julho. Esse segmento, contudo, registra crescimento zero no acumulado do ano. As vendas de veículos e peças, por sua vez, registraram queda de 0,9% na passagem de junho para julho. O resultado negativo era esperado por analistas.

“As vendas sensíveis à renda, que estavam surpreendentemente fracas em meses recentes, se recuperaram em julho. O ritmo de crescimento anual é agora mais consistente com a massa salarial real”, avaliou o banco, em relatório. “Continuamos a ver um cenário de consumo com desempenho melhor que o investimento.”

Para Rafael Leão, economista-chefe da consultoria Parallaxis, a sustentabilidade do varejo exige cautela diante da baixa qualidade dos empregos gerados no país, o custo ainda elevado do crédito e a recuperação errática da atividade econômica.

Para Rafael Leão, economista-chefe da consultoria Parallaxis, a sustentabilidade do varejo exige cautela diante da baixa qualidade dos empregos gerados no país, o custo ainda elevado do crédito e a recuperação errática da atividade econômica.

“O aumento do emprego se dá pela informalidade. O rendimento médio real do trabalhador caiu. Então, a alavancagem por crédito pode não se sustentar. Podemos estar observando um ciclo de retomada do consumo no varejo? Talvez, sim. Mas precisamos esperar mais dados para confirmar isso, porque o movimento pode não ser sustentável”, disse ele.

Takeda, da Pezco, acrescenta que o forte ritmo de crescimento das vendas de artigos mais caros, como móveis e eletrodomésticos, deve ser pontual. A liberação de recursos do FGTS pode até ajudar o varejo, mas apenas no curto prazo. “Pensando em um horizonte mais longo, um crescimento mais robusto só se consolidaria com uma retomada do emprego de melhor qualidade [formal]”, disse.

A recuperação do varejo tem se mostrado errática desde o início do ano passado e pode não ser diferente agora. Indicadores coincidentes para agosto têm levado analistas a projetar uma perda de fôlego das vendas do varejo em agosto.

A MCM Consultores e a LCA Consultores preveem estabilidade no varejo restrito frente a junho. O Itaú Unibanco estima baixa de 0,2% no mês.

Fonte: Jornal Valor Econômico