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O novo capítulo da crise na Argentina

19

AGOSTO, 2019

Notícias

A crise da Argentina ganhou um novo e preocupante capítulo na última semana, após a divulgação dos resultados das primárias das eleições presidenciais. Diante da interpretação do mercado de que haverá um retorno ao kirchnerismo – conjunto de políticas que pregam um aumento da intervenção do Estado na economia – com a provável vitória de Alberto Fernandéz, o índice de ações MERVAL sofreu fortíssima queda (-34%). Da mesma forma, a desvalorização da taxa de câmbio foi significativa (US$ 1 equivale hoje a 60 Pesos, e não mais 45). A ideia desse artigo é discutir quais as consequências dessa reprecificação dos ativos para o futuro do País.

Em primeiro lugar, a depreciação cambial tornará as importações substancialmente mais caras. Como resultado, a inflação, que hoje gira na casa de 55% ao ano, ficará ainda mais alta, por conta da restrição à concorrência provocada pela menor entrada de produtos vindos de fora. A notícia também é muito ruim para o Brasil e o Rio Grande do Sul, uma vez que Argentina ainda é um parceiro comercial de peso para nossos produtos manufaturados.

Se, por outro lado, as exportações argentinas ficam mais competitivas com a perda do valor do Peso, o atual cenário para a demanda externa não é dos mais promissores, uma vez que a atividade econômica de diversas nações vem perdendo tração nos últimos meses. Esse movimento determinou a revisão das perspectivas de crescimento do mundo em 2019, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI): de +3,7% para +3,2%, entre outubro de 2018 e julho de 2019.

Ademais, para conter a fuga de capitais, o Banco Central da Argentina aumentou a taxa básica de juros em 10 pontos percentuais, de 64% ao ano para 74% ao ano. Como resultado, o custo para a tomada de crédito das empresas, das famílias e do governo ficam bem mais altos, o que deve deprimir ainda mais o PIB.

Com o objetivo de evitar uma derrota política acachapante nas eleições de outubro, Maurício Macri, atual Presidente, anunciou medidas que conflitam com a política de austeridade que vinha sendo adotada até então. Vale lembrar que a Argentina saiu de um déficit primário de 4,4% do PIB em 2015 e, conforme a expectativa mais recente do FMI, deve equilibrar receitas e despesas nesse conceito em 2019. Além do aumento do salário mínimo e da isenção do imposto de renda, haverá pagamento de bônus para funcionários públicos e o congelamento de alguns preços. Essas ações produzem apenas uma falsa sensação de bem-estar no curtíssimo prazo junto à população, e contribuem para agravar os desequilíbrios macroeconômicos.

Tudo o que a Argentina não precisa é de políticas – vindas da situação ou da oposição – que estejam na contramão do ataque à raiz dos males: a adequação do orçamento público à realidade da arrecadação de impostos.

Imagem: Revista Exame

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

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