Por que os juros são tão altos no Brasil?

06

JUNHO, 2019

Notícias

O Banco Central divulgou recentemente a versão atualizada do “Relatório de Economia Bancária”, que traz uma série de dados e análises relevantes envolvendo as atividades financeiras e o mercado de crédito no Brasil. Em um dos capítulos, chamado “Decomposição do Custo de Crédito e do Spread”, a publicação apresenta evidências que ajudam a mapear as razões pelas quais os juros no Brasil, mesmo em sua mínima histórica, ainda são muito caros para os tomadores finais, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas.

Para responder a pergunta do título, é possível analisar o Índice do Custo de Crédito (ICC), que representa a despesa média paga com juros nas operações de empréstimo ainda em aberto do sistema financeiro, independentemente do período em que foram contraídas. São cinco os componentes principais: (1) o custo de captação dos bancos, ou seja, o valor necessário para arrecadar os fundos junto aos poupadores; (2) inadimplência, ao embutir perdas devidas ao não pagamento; (3) despesas administrativas, como pessoal e marketing; (4) tributos e Fundo Garantidor de Créditos (FGC), incluindo IOF, Imposto de Renda, CSLL PIS e COFINS; e (5) margem financeira, necessária para remunerar os acionistas.

A tabela abaixo mostra estatísticas do ICC, bem como a sua respectiva abertura. Percebe-se uma leve queda em 2018 na comparação com 2016 e 2017, determinada pela redução do custo de captação – movimento atrelado ao recuo observado na Taxa SELIC nesse período – e da inadimplência, em função da melhora da saúde financeira das famílias propiciada pelo ambiente de juros baixos, inflação sob controle, liberação das contas inativas do FGTS em 2017 e do PIS/PASEP em 2018 e aumento gradual da massa real de salários.

Esses números fornecem uma agenda para que possamos almejar juros mais baixos no futuro:

  • Diminuir o custo de captação: a queda estrutural da Taxa SELIC, sem provocar pressões inflacionárias, depende de uma descompressão da demanda, determinada, em grande parte, pela contínua expansão dos gastos públicos ao longo dos últimos anos. Para se ter uma ideia, as despesas governamentais cresceram, em média, 6% ao ano acima da inflação nos últimos 20 anos.
  • Contenção da inadimplência: aqui, acreditamos que as novas regras do Cadastro Positivo possam ser de grande valia, uma vez que a combinação de informações de adimplemento com inadimplemento tornam os modelos para a concessão de crédito muito mais assertivos.
  • Queda da carga tributária: somente possível mediante um ajuste fiscal estrutural, incluindo, principalmente, a reforma da Previdência.
  • Estímulo à concorrência: mesmo que alguns países apresentem um grau de concentração bancária tão ou mais elevado do que o do Brasil, e ainda assim tenham juros mais baixos, acreditamos que a abertura do mercado a novos players, incluindo as fintechs, deve resultar em diminuição do ICC.
  • Tornar o processo de recuperação judicial dos créditos mais eficiente, diminuindo os custos administrativos.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

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