Saída do mercado de trabalho evitou desemprego ainda maior

04

JUNHO, 2020

Notícias

A crise econômica, decorrente das políticas de distanciamento social e das incertezas relacionadas ao novo coronavírus, já causou impactos significativos no mercado de trabalho brasileiro. Essas mudanças foram além do aumento de 11,6% para 12,6% da taxa de desemprego nos últimos dois meses, conforme a PNAD Contínua, do IBGE, e podem ser melhor compreendidas por meio do exame da taxa de participação.

Segundo a definição, parte-se da chamada força de trabalho, constituída pela soma entre os ocupados (formais ou informais) e os que estão buscando alguma oportunidade laboral, porém não encontram (desocupados). Quando dividimos esse indicador pela população com 14 anos ou mais – dita em idade ativa, ou seja, apta para ofertar sua mão de obra – temos a taxa de participação. Essa variável deve ser vista como um medidor do grau de atratividade do mercado de trabalho: quanto mais lenta é a dinâmica das contratações e dos salários, menor é a disposição em ingressar no mercado, e vice-versa.

A atualização das estatísticas mostra um tombo histórico, de 61,7%, no trimestre entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, para 59,0% entre fevereiro e abril de 2020. Esse é o menor valor de toda a série histórica, iniciada em 2012, de acordo com o gráfico abaixo.

Os dados comprovam que a magnitude do ajuste na taxa de participação (-2,7 pontos percentuais) superou, e muito, o crescimento da taxa de desemprego (1,0 ponto percentual) nos últimos dois meses. Consequentemente, mais pessoas passaram a integrar a “população não economicamente ativa” – aquela que opta, deliberadamente, por não compor o mercado de trabalho pelas mais diversas razões –. Ao todo, quase 5 milhões migraram para essa condição desde o início da pandemia.

É possível, através de um exercício simples, simular o efeito sobre a desocupação caso o contingente supracitado estivesse procurando emprego sem lograr êxito. Como resultado, a fração não seria de 12,6%, mas 16,3%: alta de 3,8 pontos percentuais.

Esse fato joga luz sobre o que esperar a respeito do futuro. Se a queda da taxa de participação tornou menos brusco o movimento da taxa de desemprego agora, a retomada gradual da atividade fará com que a elevação da taxa de participação impeça uma recuperação mais forte do nível de emprego em um momento posterior.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

_________________________________________________________________________

Veja também: